sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Trabalho de Graduação do Bacharelado em Teologia pela UNIASSELVI. Garanto que não foi nada fácil, mas o resultado compensou. Tirei 10!

EDUCAÇÃO DE ADOLESCENTES: TEMAS IMPORTANTES PARA A FASE NAS ATIVIDADES
EDUCACIONAIS DA IGREJA


Marivana Felix Pereira Virga

Profa. Orientadora Katia Fontanin

Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Teologia in company(TEO0101)  – Trabalho de Graduação
10/08/2011

 
RESUMO

Adolescer é desabrochar, crescer, renovar, descobrir um mundo novo. O ritmo acelerado da vida moderna coloca o adolescente diante das mais diversificadas escolhas todos os dias. Sendo essa a idade que apresenta a crise de identidade, a correta utilização do potencial de cada adolescente é o caminho para a formação do cidadão equilibrado e feliz. O papel crucial da igreja é o de auxiliar na formação de indivíduos intelectual e espiritualmente firmados. Para tanto, faz-se necessária uma reflexão das mudanças que acontecem na adolescência e do que o adolescente contemporâneo enfrenta nos dias de hoje, para se concluir se as atividades e temas oferecidos na igreja, objetivando o crescimento do adolescente e a passagem tranqüila por essa fase, estão de acordo com as expectativas e necessidades dele.

Palavras-chave: Características da Adolescência; Educação Cristã; Papel da Igreja.


1 INTRODUÇÃO


A adolescência é uma fase decisiva na vida do ser humano. Segundo o psicólogo Erik Erikson (apud PEREIRA, 2010, p. 16), autor da teoria do desenvolvimento psicossocial, é nessa fase que se dá o início da formação da identidade, gerando a crise da identidade bem como a confusão de papéis. O adolescente sofre com a passagem da “vida relativamente despreocupada da infância” (PEREIRA, 2010, p. 42) para iniciar a luta pela descoberta da sua identidade.

As crianças que frequentam a igreja, geralmente passam para o grupo de pré-adolescentes sem grandes problemas. Já quando entram na adolescência, aos 12 ou 13 anos, vários desses adolescentes passam a apresentar aversão ao grupo e se negam a participar das atividades que a igreja oferece para eles.

O que acontece com os adolescentes que se negam a participar das atividades oferecidas pela igreja? Será que a educação cristã está falhando? Será a negligência da família? Será o sentimento de liberdade que subitamente acomete o adolescente e que o faz se rebelar contra o seu passado de frequentador assíduo dos eventos promovidos pelo seu grupo?

A problematização da negativa do adolescente em participar das atividades que a igreja oferece a eles é intrigante para os organizadores. Uma grande parte dos adolescentes que participa ativamente das atividades, incentiva, convida-os e eles, ainda assim, participam de vez em quando, depois de várias tentativas de persuasão e convites.

Esse projeto intenta colher informações sobre a questão dos temas abordados nas reuniões de adolescentes e nas aulas da Escola Bíblica Dominical. O objetivo é levantar as necessidades atuais, interagindo com os adolescentes a ponto de tirar deles essa relação de temas.

Para entender porque se deseja insistir na frequência do adolescente cristão às atividades propostas pela igreja, através de temas de seu interesse, sugere-se o que disse o apóstolo Paulo em carta ao jovem Timóteo: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra." (BÍBLIA, N.T. 2 Timóteo 3:16, 17). A eficácia da Palavra de Deus na educação se dá na boa formação do homem, do cidadão, e a proposta da igreja, no que diz respeito ao adolescente é de ajudá-lo na plena formação da sua identidade, através do estudo da Bíblia e de atividades correlatas, gerando interesse nos temas propostos e a consequente contribuição para a construção de um adolescente equilibrado e feliz.


2 CARACTERÍSTICAS GERAIS DA ADOLESCÊNCIA

A adolescência é um período relativamente curto, entre a infância e a idade adulta, e que a pouco mais de 60 anos não era considerada uma faixa etária distinta, segundo Chapman (2001, p.17).  A palavra adolescência provém do verbo latino “adolescerê”, que significa brotar, fazer-se grande (CHAGAS, 2002). Não há definição concreta quanto à idade inicial e final dessa fase, contudo, comumente se dá entre os 12 e 20 anos.

Nessa fase acontecem as mudanças físicas, como o pé e as orelhas gigantes desproporcionais ao restante do corpo, o estirão, que faz o adolescente emagrecer exageradamente e, em muitos casos, logo em seguida, engordar. Sem falar no aparelho reprodutor que sofre mudanças extremas e fica pronto para a reprodução da espécie. Haja hormônio!
E ainda, em meio a tudo isso se dá o início do desenvolvimento do pensamento cognitivo, ou seja, antes, quando criança, interagia com o exterior e era movida aos estímulos do meio, já na adolescência, a pessoa inicia a interação com o seu interior, seus próprios sentimentos, pensamentos e soluções para as crises da humanidade. Pereira (2010, p.31) explica que “para a criança, o que é possível é o que é real; para o adolescente, o que é real é apenas uma faceta do que é possível”.

É um momento delicado e importante demais para ser negligenciado na educação cristã. É nesse momento que o engajamento com grupos de adolescentes fará a diferença na formação moral, intelectual e emocional do adolescente. As perguntas são muitas e a correta condução de assuntos relacionados à fase ajudará o adolescente a passar por ela de forma saudável, tendo proporcionado a base firme para a formação do adulto equilibrado e feliz que todos desejam e buscam ser.


3 A EDUCAÇÃO CRISTÃ PARA ADOLESCENTES


O trabalho cristão com adolescentes visa firmar a base dada na infância e pré-adolescência para aqueles adolescentes que já frequentam a igreja e de levar os adolescentes que ainda não tiveram contato com a fé cristã ao caminho da salvação em Jesus Cristo.

Para poder-se realizar um trabalho profícuo é necessário analisar o assunto desde a Segunda Guerra Mundial, quando a fase passou a ser chamada oficialmente de “adolescência” e o que cerca e influencia o adolescente contemporâneo.

Tanto pais quanto os líderes que trabalham com os adolescentes na igreja devem entender as diferenças entre a época que viveram suas adolescências e o que acontece hoje.

Chapman (2001) expressa muito bem essa questão, no que se refere ao adolescente acolhido na igreja.

Os adolescentes de hoje estão mais interessados nas experiências e nos relacionamentos que podem ter nos grupos religiosos do que numa crença religiosa abstrata. Se o grupo religioso for receptivo, carinhoso e lhes der apoio, eles se sentirão atraídos para lá, mesmo que não concordem com muitas das crenças desse grupo (CHAPMAN, 2001, p.29)

É nesse cenário que a igreja tem que trabalhar, tem que se informar, tem que se envolver e se modernizar, para entender o mundo adolescente de hoje e suas reais necessidades.
Paulo Freire (apud PRIOTTO, 2008) explica que “ensinar é [...] um ato criador, um ato crítico e não mecânico”. Dessa forma, o ensino nas igrejas, como era feito antigamente, não pode ser transmitido em forma de palestras somente. Deve-se haver interação, criatividade, desafios, meios de responder aos anseios dos adolescentes, para que fixem a aprendizagem através da vivência dos métodos de ensino. O professor é mediador entre o grupo de adolescentes e o tema abordado (PRIOTTO, 2008).


3.1 O ADOLESCENTE DE ONTEM

O adolescente de ontem brincava na rua de bétsi, fazia seu próprio carrinho de rolimã e sua pipa era confeccionada desde a vareta, tirada do bambu, talhada a canivete. A menina já ajudava em casa cedo, porque mulher tinha que saber passar, lavar e cozinhar para casar. Ambos também trabalhavam cedo, muitos na lavoura e, com a industrialização, o menino trabalhava e a menina bordava em casa, ouvindo novela no rádio, preparando-se para agradar o marido e ter uma fila de filhos no futuro.

Segundo Chapman (2001, p.18) “desde a década de 1940, os adolescentes têm seguido esse paradigma com o propósito de obter identidade própria e independência, mas isso ocorreu em um mundo que mudava rapidamente”.   

Os álbuns de figurinhas e o “bafinho” para aumentar a coleção e tentar preencher o álbum era um entretenimento importante. Os jogos de bola de gude, bonecas, casinha, médico, dentista, viajante aconteciam debaixo das goiabeiras e mangueiras. Cada uma delas era um cômodo da casa. Havia espaço, havia certa liberdade e inocência em tudo aquilo. A idade certa de raspar a perna era quando a adolescente completasse 15 anos, no dia do seu aniversário. O padre comparecia e o pai dançava a primeira valsa com a menina-moça.

Surgiram os aparelhos bucais. Todos que podiam, colocavam os ferrinhos brilhantes na boca. Surgiu a “Vila Sésamo”, a TV em cores, a discoteca ao som dos “Embalos de Sábado à Noite”.  O movimento hippie fez revolução nas roupas, desde saias curtíssimas a calças de pernas largas. A TV inspirou sapatos de plataforma, tanto para homem quanto para mulheres e filmes fizeram as jovens usar meias coloridas e brilhantes com sandálias altas, para dançar. A cabeça dos adolescentes passou a se ocupar de outras coisas, além da preparação para o casamento e uma vida voltada para o lar. Quebrava-se o paradigma da adolescência ser a fase da preparação para o casamento, que resumia a vida adulta.

Uma década depois, já no final dos anos 80, a fita de vídeo era popular e as filmadoras, que custavam mil dólares, muito para a época, eram sonho de consumo. Já havia computadores nos lares. Era mais fácil comprar um carro para a família e o adolescente já dirigia ao lado do pai orgulhoso.

De meados dos anos 90 para cá, a explosão de possibilidades se estendeu com uma velocidade incrível e se acelerou ainda mais a partir do início do século XXI. 

O adolescente de ontem buscava sua identidade própria através do que já estava determinado, contudo, com as rápidas mudanças sociais, políticas e econômicas no país e no mundo, um leque imenso se descortinou diante dele e é aí que ele pode se perder ou definitivamente se encontrar como ser humano e cidadão dessa terra.


3.2 O ADOLESCENTE CONTEMPORÂNEO

É inegável o fato da crescente oferta de itens para adolescentes. A adolescência se tornou um nicho de mercado rentável e reconhecido. Há cerca de menos de 30 anos atrás era impossível encontrar roupa pronta para a menina moça que tinha pernas finíssimas e nada de cintura. Hoje, lojas inteiras podem ser exploradas, com grifes e marcas em infinitas opções. Sem falar de outros produtos que são oferecidos, como a mídia exclusiva para a idade, novelas, filmes, restaurantes que oferecem lanches “teen”, revistas especializadas e muito, muito mais.

Pereira (2010) explica o pensamento de Piaget, tão atual como no início do século passado.

O adolescente, como a criança, vive no presente, mas ao contrário da criança também vive muito na dimensão ausente, isto é no futuro e no reino do hipotético. Seu mundo conceitual está povoado de teorias informais sobre si mesmo e sobre a vida, cheio de planos para o seu futuro e o da sociedade, em resumo, cheio de idéias que transcendem a situação imediata, as relações interpessoais atuais, etc.


(PEREIRA, 2010, p.33).

Os adolescentes de hoje conversam por “chats” na internet e por SMS via celular. Eles teclam ou riem quando conversam. Falam um “dialeto” que há necessidade de contato constante para se entender. Não pela gíria, própria da idade, mas pelo modo de se expressar e de falar. As palavras saem com pressa. Existe pressa, ânsia, urgência. Existe também o silêncio, a retração, a angústia, o medo, as crises. Crises advindas da idade infantil, quando o que se vivenciou não foi resolvido e agora é trazido à tona pelo processo do pensamento, interferindo na busca por sua identidade. É a fase de buscar o seu próprio “eu”. “Quem sou eu, afinal?”

O Prof. Doutor Ramiro Veríssimo (2002), professor de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina do Porto em Portugal, desenvolveu um trabalho à luz da teoria de Erik Erikson, psicanalista clínico influenciado por Freud e sua filha Anna Freud, cuja adolescência, por motivos familiares, poderia ter sido altamente conturbada, contudo conseguira passar pelos chamados anos de rebeldia e confusão sem se sentir particularmente excluído.  A partir dessa premissa, Erikson (apud VERÍSSIMO, 2002) fala da adolescência e da “crise de identidade” pela primeira vez, durante a Segunda Guerra Mundial, quando observa e trata de soldados jovens que retornavam da guerra e não sabiam mais dizer quem eram.

Veríssimo (2002) também ressalta a “confusão de papéis” da teoria de Erikson, que pode explicar a razão da rebeldia e a escolha por formas de expressão dessa rebeldia, como o uso de drogas, cabelo e roupas extravagantes e outras situações que são fora da normalidade.

Nessa confusão de papéis, entre entrega sem reservas e receio da rejeição, sentindo-se isolado, vazio, angustiado e indeciso, pode o adolescente, pelo contrário, não aceitar a integração no complexo mundo dos adultos com a necessária adopção [sic] de uma identidade social antes fixando-se a formas imaturas de reagir (VERÍSSIMO, 2002, p.20).

Um cenário antagônico certamente ao do adolescente de ontem se descortina, apesar dos conflitos internos serem os mesmo da teoria que Erikson formulou há mais de 60 anos.

O adolescente contemporâneo está mais gordo. Ele come frituras e alimentos industrializados diante da TV e do computador. Diante desses aparelhos, ele vê “a influência maciça da mídia ditando comportamentos, padrões de beleza e estereótipos de perfeição física” (PEREIRA, 2010, p. 25) e entra em conflito com seu “eu”. Se há a preocupação demasiada com a obesidade, o adolescente se isola e se afasta do que poderia ser a solução: atividades esportivas e em grupo.

Por outro lado, o culto ao corpo, academias, corpo perfeito e idealizado pela autoimagem que o adolescente faz de si mesmo é fator de crise que deve ser trabalhado para não gerar a já mencionada confusão de papéis.

A sensibilidade aos sinais de rejeição, que caracterizam a adolescência, gera o que Pereira (2010) chama de “era da ansiedade”. A vida contemporânea está agitada, tensa, cheia de apreensão e inquietação confusa.  O adolescente na busca por sua identidade procura um grupo que possa ser o indicador e modelo dessa identidade. Se a escolha não for acertada, pode-se sentir apavorado, inseguro, inferior aos outros. Tais sentimentos podem advir da vida incoerente dos adultos, que não vivem o que falam e exigem perfeição do adolescente. O adolescente pode se sentir constantemente testado, criticado.

Há também a questão da permissividade. Os pais trabalham fora, os filhos ficam em casa a mercê dos aparelhos de mídia, já que não podem sair para a rua com tanta liberdade, dada a situação de violência que ronda a vida das pessoas nos dias de hoje. Os pais, ao retornarem do trabalho, com dupla jornada, não têm tempo de verificar a vida dos filhos e esse comportamento abre espaço para o adolescente fixar seus próprios limites, gerando ansiedade, já que eles não são capazes de realizar essa tarefa sem a ajuda dos adultos.

Os pais estão se divorciando e se casando de novo. Os filhos se sentem culpados pela ruptura do casamento ou assistem o relacionamento tenso dos pais, muitas vezes decorrente da falta de compromisso ou porque querem viver suas próprias vidas, fazendo com que seus filhos se sintam um estorvo, um empecilho. As situações são tão diversas que não caberiam nesse trabalho.

Diante de tudo isso e ainda mais, está a sexualidade. O “ficar” que se iniciou nos anos 1980 é bem definido por Jacqueline Chaves (apud CLARK, 1997, p. 23) como “um código de relacionamento marcado pela falta de compromisso e pela pluralidade de desejos, regras e usos”. Com a liberdade dada pelos pais e adultos responsáveis pelos adolescentes, a falta de compromisso está cada vez mais se solidificando. O importante é viver o momento, ser feliz sem fronteiras.

A mídia incentiva em qualquer horário o sexo livre, fora do casamento, em qualquer idade. Chega-se ao cúmulo de se ter meninas de 11 anos grávidas e prontas para dar a luz. Nesse sentido, pondera-se que a humanidade esteja caminhando para trás. Em tempos antigos a menina ficava “mocinha” e já se casava, pois estava pronta para gerar filhos.

Hoje o adolescente se rende aos prazeres da carne com toda liberdade. Pais estão amparando essas escolhas com medo do que possam sofrer fora de casa e não estão se lembrando do que se passa no interior do adolescente, que não passa de uma criança, passando para a fase adulta.

Em suma, os desejos, anseios e necessidades do adolescente atual são tão antigos quanto de qualquer outro adolescente de outra época. O que difere são as situações vivenciadas. Assim a abordagem pedagógica tem que ser diferente e tão dinâmica quanto o ritmo que eles vivenciam.

Amor e compreensão sempre foram e sempre serão a necessidade maior dessa fase tão importante para o ser humano.


3.3 O QUE SERÁ DO ADOLESCENTE DO FUTURO?

O adolescente do futuro irá aceitar tudo com muita naturalidade. Será muito difícil explicar o que é correto, respeitoso, de bom convívio e conseguir que ele diferencie o que é certo do que é errado. Esse será um desafio enorme para a educação no futuro, inclusive a educação cristã.

O adolescente cristão terá uma enorme dificuldade de entender o que é pecado.  A mídia estará cada vez mais livre, os pais cada vez mais longe, dentro de seus próprios problemas, os amigos e colegas cumprirão o papel de influenciadores. Na ânsia de ter, buscarão a profissão ideal e já sairão prontos da universidade. Prontos para mandar e desmandar. Será a era da individualidade plena. Cada um por si.

Os corações dos adolescentes estarão sensíveis e doloridos, amplamente necessitados de Palavra de Deus e da presença do Senhor Jesus. Resta saber quem sobreviverá para ser mestre e educador, sinceramente voltado a ensinar uma geração sufocada pela tecnologia, pela busca ansiosa do bem estar pessoal. Haverá alguém para ensinar?


4 A FUNÇÃO DA IGREJA NO CRESCIMENTO DO ADOLESCENTE

O papel da igreja de Cristo vai além da orientação espiritual. Esse abrange também o crescimento intelectual do indivíduo. A igreja tem seus fundamentos firmados na Bíblia, que é a Palavra inspirada por Deus. Estudando-a encontram-se os caminhos para uma vida feliz e saudável. Desde o início de suas páginas, esse livro mostra o amor e cuidado de Deus para com o homem, feito a sua imagem e semelhança. Sendo assim, ninguém melhor que o próprio Deus para compreender os mais profundos desígnios humanos. A meditação e estudo dessa Palavra abrem perspectivas e reprogramam sentimentos e pensamentos, através da fé na Palavra e em Jesus Cristo, mediador entre Deus e os homens. Essa mudança na vida da pessoa, que se chama “conversão” em razão da mudança de direção em vários sentidos, é o ideal para a fase da adolescência.


4.1 CRESCIMENTO INTELECTUAL

O adolescente, diante de tantas opções, é desafiado a todo instante a fazer as suas escolhas. Ele pode escolher entre ser um adolescente equilibrado e dirigido pelas regras de conduta saudáveis ou pode escolher fazer parte de um grupo que se droga, preferindo viver momentos felizes, para se esquecer do que pode ter acontecido na infância ou do que esteja passando no momento. É aí que a igreja entra com o ensino e abordagem dos temas de interesse do adolescente.

O ensino na igreja visa elevar o nível intelectual do adolescente através do estudo de assuntos relativos a sua própria idade. Assuntos que os adultos julgam interessantes para a idade e que surgiram pela observação e conversas dos líderes ou que tenham sido solicitados pelos próprios adolescentes.

Freitas (2006) explica que “para o adolescente surge um mundo novo cheio de contradições que não podem ser resolvidas pelos velhos métodos.” Com o desenvolvimento rápido que estamos vivenciando, os assuntos abordados em revistas e materiais usados nas igrejas precisam ser constantemente repensados, questionados. Para se descobrir se o caminho trilhado é o correto faz-se necessário aplicar pesquisas investigatórias, que levantem os temas atuais e as áreas de interesse da turma.


4.2 CRESCIMENTO ESPIRITUAL

No que tange o crescimento espiritual, a igreja deve abordar os temas e aplicar a prática da Palavra de Deus.

Nesse quesito, a igreja precisa alinhar versículos e passagens bíblicas com as necessidades do adolescente. Não vale somente contar a história e ler o versículo. O aprendizado precisa ser inspirador, tem levar o adolescente a ter vontade de se sentar aos pés do professor (WILKINSON, 1998).  O professor precisa colocar os holofotes sobre a matéria que está sendo ensinada e não sobre si mesmo. Dessa forma, crescem o professor e o aluno, de mãos dadas.
É totalmente possível falar do corpo e o que ele significa para Deus, da autoridade, já que o adolescente tem dificuldades em reconhecer e aceitar uma autoridade, dar orientação profissional, discorrer sobre sexo, namoro, responsabilidades e comportamentos à luz da Bíblia.

O compromisso sério com Deus faz do adolescente uma pessoa comprometida com a sociedade onde vive e com seus ideais de vida. Incute responsabilidade por seus atos em relação às outras pessoas, trabalha seus sentimentos, flexibiliza a obediência e a honestidade, tão necessárias e apreciadas nas pessoas e outros comportamentos saudáveis e necessários para que ele chegue à idade adulta bem ajustado e pronto para encarar os grandes desafios de sua vida.


4.3 CARACTERÍSTICAS GERAIS DO EDUCADOR CRISTÃO DE ADOLESCENTES

Ser professor ou educador cristão é antes de tudo um ministério, uma vocação, um chamado especial de Deus. O educador cristão necessita ter certas características para poder ter êxito no seu intento, já que além de transmitir satisfatoriamente a mensagem proposta necessita visar também receber o retorno do aprendizado.

A primeira característica é ser cristão verdadeiro, praticante. O exemplo fala mais que as palavras, diz o ditado. O aluno aprenderá mais por assistir o exemplo e imitá-lo, que pelo ouvir e não ver o que se é dito posto em prática.

O educador cristão precisa gostar de aprender antes de ensinar. Escreveu a poetisa Cora Coralina em um de seus poemas que “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.” Para o professor, o aprender deve ser algo tão prazeroso quanto o ensinar.

Wilkinson (1998) diz que “os professores são responsáveis por levar os alunos a aprender.” É responsabilidade do professor garantir que o aluno esteja aprendendo. A questão não é simplesmente ensinar, mas fazer aprender. Por isso ele terá que estudar metodologia, pedagogia e fará uso de dinâmicas e outras ferramentas de aprendizagem até atingir o seu objetivo.

O educador cristão de adolescentes tem que estar ciente que prestará contas a Deus da influência que exerceu sobre seus alunos. Esse quesito faz parte da responsabilidade do educador. Assim como todos os que trabalham no corpo de Cristo terão seu julgamento, o educador terá uma cobrança ainda maior. Tiago, em sua carta, explica: “Meus irmãos, não sejam muitos de vocês mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor.” (BÍBLIA, N.T. Tiago 3:1).

O sucesso do educador de adolescentes será medido pelo sucesso alcançado por seus alunos. O empenho em ser criativo, o tempo gasto com pesquisa e o esforço para passar o que se quer ensinar somente se concretizará a partir do resultado que os alunos mostrarem. A paciência nesse sentido é a característica que o educador deve desenvolver para que o objetivo seja alcançado e se obtenha o êxito almejado.

Em termos gerais, a característica principal do educador cristão de adolescentes é o amor. É necessário amar o adolescente incondicionalmente. Wilkinson (1998) aponta o amor coerente e incondicional como o primeiro maximizador da aprendizagem. A partir desse amor cultivado e vivido realmente, o segundo maximizador “comunique o conteúdo, tendo em mente as necessidades e o interesse de seus alunos” fluirá naturalmente. Não será um fardo dar a matéria, mas será algo prazeroso, que virá do divino, sem reservas, no fluir do Espírito Santo. Jesus ensinava e falava sobre o que as pessoas precisavam ouvir. Ele se interessava genuinamente pelas pessoas.

Ser educador cristão de adolescentes é algo desafiador, extremamente empolgante, apesar de todo o trabalho. É uma carreira a percorrer, mas não é uma carreira solo. É um trabalho em equipe, em conjunto com o adolescente, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Um triângulo que está fadado ao sucesso, se bem conduzido à luz da Palavra de Deus.


5 MATERIAL E MÉTODOS DE PESQUISA

A evasão do adolescente é preocupante tanto para o professor e líder do grupo de adolescentes como para a família, principalmente para aqueles familiares que participam ativamente das atividades da igreja e não conseguem entender a problemática. O entendimento e propostas de reforço no que está sendo feito de bom e as mudanças e inovações visam trazer resultado favorável para o aumento na assiduidade desses adolescentes às atividades propostas pela igreja para sua idade.

A pesquisa para se verificar a questão dos temas e da razão da evasão foi realizada em quatro Igrejas do Evangelho Quadrangular de Campinas. O método utilizado foi o hipotético-dedutivo, que “parte da percepção de uma “falha”, uma lacuna no conhecimento, acerca da qual se formulam hipóteses e, pelo processo de interferência dedutiva, testa a predição da ocorrência de fenômenos abrangidos pela hipótese” (FONTANIN, 2009). O procedimento técnico foi de levantamento, uma vez que a pesquisa envolveu a “interrogação direta das pessoas cujo comportamento se deseja conhecer” (SILVA; WEIDUSCHAT; TAFNER, 2007).

A natureza da pesquisa foi aplicada, com o objetivo de gerar solução e sugestão de novos temas para modernizar e adequar o currículo educacional da igreja com as necessidades emergentes dos adolescentes de hoje.

O Grupo Ibope (2011) dá uma boa definição para a pesquisa qualitativa, que foi classificação utilizada em relação à abordagem do problema.

As pesquisas qualitativas são exploratórias, ou seja, estimulam os entrevistados a pensarem livremente sobre algum tema, objeto ou conceito. Elas fazem emergir aspectos subjetivos e atingem motivações não explícitas, ou mesmo conscientes, de maneira espontânea. São usadas quando se busca percepções e entendimento sobre a natureza geral de uma questão, abrindo espaço para a interpretação (IBOPE, 2011).

Por se tratar de pesquisa descritiva, optou-se por fazer um roteiro para direcionar as entrevistas. As entrevistas foram feitas com grupos de no máximo quatro adolescentes, procurando mesclar os que participam ativamente e os que não participam das atividades propostas pela igreja.

O roteiro foi composto de quatro diretrizes, a saber:

1.      Quais as atividades da igreja que mais te agradam?

2.      Reforçar os pontos negativos.

3.      Sugira temas que você gostaria de ouvir.

4.     O que deve ser feito para os adolescentes participem mais?

Cada grupo recebeu uma recompensa composta por bolachas, sucos e refrigerantes.


6 RESULTADOS E DISCUSSÃO


Os resultados foram surpreendentes para muitos dos líderes de adolescentes que participaram das pesquisas. Uma das líderes concluiu que há necessidade de maior aproximação e de ouvir os adolescentes, dado o nível de respostas, nunca esperadas por ela, que lida com esses mesmos adolescentes há tantos anos. Outros resultados surpreenderam e resultaram em assiduidade dos adolescentes entrevistados, que antes não compareciam às atividades. Conclui-se que faltava apenas proximidade e interesse por parte da liderança do grupo e um bom bate papo.

A pergunta inicial da pesquisa foi “quais as atividades da igreja que mais te agradam?”. Em linhas gerais os adolescentes não conseguem exprimir as atividades que mais lhes agradam. Eles querem “coisas diferentes”. Questionam porque não podem participar das atividades como baladas, shows e festinhas fora da turma da igreja. Não vêem geralmente mal em participar e têm curiosidade em conhecer esses ambientes. Gostam de música, de dançar, de participar de acampamentos na igreja e quando há festas à fantasia ou outra coisa criativa. Não gostam de ficar sentados, sem fazer nada e é difícil se levantar no domingo cedo para ir à Escola Bíblica Dominical. Acham a atividade legal, mas prefeririam ficar na cama até mais tarde. Não sabem dizer se ficam cansados ou se querem ficar na cama porque todo o restante do pessoal da escola secular vai dizer na segunda-feira, que ficou na cama até mais tarde no domingo. Alguns deram sinal de participar das atividades porque são obrigados ou para agradar os pais e conseguir outras coisas em troca. Um deles não quer perder o que pode acontecer na atividade e participa por curiosidade.

A segunda parte do roteiro contemplava o reforço dos pontos negativos, para conseguir-se entender a negativa em participar das atividades. As respostas foram preguiça, falta de interesse, vergonha de participar e o professor com quem não se identificam. Há também o fato de muitos grupos e classes de adolescentes estarem unidos ao grupo e classe de jovens na igreja e a diferença de idade e assuntos dificulta a participação tanto de um como de outro. Uma das líderes entrevistadoras resolveu assumir uma classe com apenas três adolescentes para separá-los dos jovens, objetivando garantir a assiduidade, a inserção de assuntos pertinentes à idade e o aumento no número de alunos.

Na terceira parte do roteiro, os entrevistadores pediram sugestões de temas que os adolescentes gostariam de ouvir. O primeiro assunto e mais abordado foi o tema que tem tido ampla e desnecessária ênfase pela TV, o homossexualismo. O adolescente não quer uma conceituação do tema, mas quer saber por que é pecado, por que é proibido. Quer saber como se controlar se algo nesse nível acontecer consigo. Quer saber o que fazer. O que não fazer ele já sabe. Acham que a igreja discrimina o homossexual e dão ênfase exagerada quando algum deles tenta se inserir no grupo não sabendo como se comportar. Os outros temas que desejam explicação de por que é pecado foram: ficar, ser emo, fazer sexo antes do casamento, diferença entre sexualidade e sexo, uso da internet (chats, sites e etc.), gravidez, bullying, desobediência aos pais e drogas. Pediram para falar de seus sentimentos, como a raiva, a culpa, a tristeza, de relacionamentos com os pais, irmãos, colegas e funcionários de escola e do trabalho. O uso da internet para eles é tão simples e comum como respirar e não conseguem enxergar os malefícios, já que se julgam capazes de filtrar as informações que acessam e capazes de se controlar diante da curiosidade que emerge durante a navegação. Querem abordar assuntos relacionados à formação profissional. Muitos desses adolescentes são de classe muito baixa e esperam obter sucesso profissional e esperam da liderança da igreja um incentivo, uma direção.

A última questão foi para indicarem o que deve ser feito para os adolescentes participem mais. Eles apontaram “coisas diferentes”. Gostam e aprovam cultos especiais, com pessoas diferentes para trazer a palavra, dinâmicas, jogos, festas, acampamentos, dormir fora de casa. Contestaram as reuniões e cultos direcionados a eles que sempre seguem uma ordem lógica. Querem ser surpreendidos.

O resultado da pesquisa no que se refere aos temas para serem abordados nas atividades da igreja merece destaque em quadro, como o abaixo. A coluna “Abordagem Requerida” retrata e é resultado da necessidade explicitada e latente de cada adolescente que participou da pesquisa.

Temas Sugeridos pelos Adolescentes Entrevistados
Abordagem Requerida
Homossexualismo
Por que é pecado?
Ficar
É pecado? Por quê?
Ser Emo (modismos)
O que é? Por que é pecado?
Sexo antes do Casamento
Por que é pecado? Como resistir?
Internet (chats, sites de relacionamento, navegação)
Quando é pecado? Uso intenso, curiosidade controlada,
Gravidez na Adolescência
Riscos e conseqüências para ambos os sexos
Bullying
Como agir?
Desobediência aos Pais
O que é pecado nesse assunto?
Drogas
Em geral
Os sentimentos dos adolescentes (raiva, culpa, tristeza)
Como lidar com os meus sentimentos.
Relacionamento Familiar e Social
Como lidar com os pais, irmãos e colegas
Formação Profissional
Como descobrir o que vou ser no futuro.
QUADRO 1: TEMAS SUGERIDOS PELOS ADOLESCENTES ENTREVISTADOS
FONTE: A autora

Baseado nos assuntos sugeridos e na observação durante as entrevistas realizadas, sugere-se que os temas sejam ampliados e a abordagem seja aprofundada. Sugere-se mesclar os dois quadros para se conseguir uma lista única. No caso desse trabalho, objetiva-se mostrar o resultado da pesquisa e a sugestão de melhoria a partir desse resultado, por essa razão que se mostram os dois quadros separadamente.


Temas Sugeridos pelos Líderes Entrevistadores
Abordagem Sugerida
Sexualidade e Sexo
Sexualidade não é pecado. Fazer sexo ilícito é pecado.
Pecado
Deus ama o pecador, não o pecado.
Homossexualismo
Como resistir a esse impulso
Internet
A nova droga
Bullying
Agente e receptor. Abordagem espiritual incluindo cura interior de quem recebe e arrependimento de quem pratica.
Relacionamento Familiar
Arrependimento e cura interior
Drogas (álcool, a droga mais utilizada pelos adolescentes, fumo, internet e drogas em geral)
Como não entrar nessa – Parte 1
Como sair dessa – Parte 2
Dons naturais e dons do Espírito
Como saber qual o meu dom natural?
Qual o meu dom espiritual?
Violência e raiva
Impulsos controlados pelo Espírito em nós
Cura interior
Cura do que aconteceu da infância à adolescência. 
QUADRO 2: TEMAS SUGERIDOS PELOS LÍDERES ENTREVISTADORES
FONTE: A autora

Içami Tiba (2003) ao descrever uma das razões porque um jovem chega a se drogar, revela que “a adolescência é a época das descobertas, e o adolescente quer conhecer tudo.” Na dedicatória do mesmo livro, Tiba (2003) escreve: “com os adolescentes, aprendi a renovar.”

É esse exatamente o cerne do ensino de adolescentes, o grande e árduo desafio: a renovação. Eles querem mais, são incansáveis, elétricos, adoráveis! Transformam o mundo com suas perguntas, suas dúvidas, sua curiosidade, inquietam e põe de cabeça para baixo a casa toda e preocupam a igreja. Eles não são o futuro da igreja, são o presente, o hoje real. São um presente de Deus para líderes que se propõe a serem incansáveis em estar ao seu lado.


7  CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclui-se que as atividades propostas pela igreja satisfazem os adolescentes, contudo, necessitam de mais vivacidade e energia, condizente com a idade e fase que atravessam.

Interagir com o adolescente é uma das experiências mais gratificantes que se pode experimentar. Levá-lo ao arrependimento e à conversão tem sido uma das atividades mais importantes e felizes da igreja. Sim, o adolescente tem do que se arrepender. São milhões de pensamentos, de estímulos que ele recebe. Passou pela idade da mentira, do engano e se sentiu mal de enganar o irmão, a mãe, o amado pai. Sofreu abusos, abusou. Ficou irado, errou. É um ser humano que merece toda a atenção e respeito.

Diante de tantas mudanças, questionamentos e lutas internas que passa na fase da adolescência, pode-se dizer que é um herói ao passar para a fase adulta. Muitos não têm a sorte de encontrar quem os ame, se dedique a eles e lhes proporcione uma transição mais suave. Nesse sentido, a igreja se propõe a ajudar, quando os próprios pais não conseguem, se negam, se alojam em seu próprio mundo, deixando o adolescente ao léu.

O líder de adolescentes pode estar certo que além dos galardões celestiais, haverá a recompensa terrena de um adolescente que foi por ele amado, ensinado, instruído. 

Uma jovem, ao ser arguida por que deixou de ir às reuniões de adolescentes, me respondeu: “agora estou no grupo de jovens”. Contei com ela: 13, 14, 15, 16, 17. Cinco anos que nunca mais voltarão e que ela não vivenciou no grupo de adolescentes. Olhou-me atônita e disse: “É verdade”. Ganhei um abraço sincero.


REFERÊNCIAS


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